domingo, 21 de outubro de 2012

Cão cego que nada e recolhe objetos na água ganha prêmio




Um labrador foi premiado na Grã-Bretanha por sua habilidades de nadar e buscar objetos embaixo d'água. Detalhe: o cão é cego e, mesmo assim, demonstra agilidade e atrai atenção por sua destreza.

Jack, que está sendo chamado de 'Michael Phelps de quatro patas', tem dez anos e ganhou o prêmio Pet Champion na categoria esportes aquáticos, deixando para trás centenas de outros cachorros de todo o país.

Margaret Simpson, dona do cão, disse que as 200 libras (cerca de R$ 650) recebidas serão usadas para suas despesas com veterinário, além de uma nova coleira e brinquedos.

O labrador ficou cego há três anos, mas isso não o impediu de aprender novas habilidades.

"Quando nós o trouxemos para casa ele estava perdendo a visão", conta Margaret. Ela diz que a família, natural de Coventry, logo se deu conta do talento de Jack e passou a estimulá-lo jogando objetos para que ele buscasse dentro d'água.

"Ele começou a entrar em lagos e canais usando somente seu faro, colocando sua cabeça embaixo d'água e trazendo grandes pedras de volta. Aí, passamos a atirar um brinquedo de borracha, que era melhor para seus dentes, e ele simplesmente mergulhava. Foi assim que percebemos como ele era talentoso".

Jack passou a sofrer de atrofia retinal progressiva, uma doença genética comum, quando tinha seis anos, e, em menos de um ano, já estava cego.

sábado, 20 de outubro de 2012

Cegos testam aparelhos que podem aposentar a bengala


Depois de ter perdido a visão num acidente de carro, o funcionário público Telésforo Nogueira teve que fazer curso de um ano para aprender a andar de bengala. "À medida em que eu bato a bengala de um lado, eu ponho o pé do outro", comenta Nogueira.

Nesta semana, pela primeira vez, em 29 anos, ele caminhou na rua, com as mãos livres da bengala. O funcionário público é um dos primeiros cegos a testar o aparelho, criado em um hospital filantrópico para deficientes visuais, em Belo Horizonte.

A ideia é simples, mas exigiu muita pesquisa. O equipamento é cheio de sensores. E, ao detectar um obstáculo, emite sons de alerta. O aparelho é preso ao corpo e ligado a uma bateria que cabe no bolso. Por enquanto, é só um protótipo testado em voluntários.

Um dos problemas revelados pelos testes é que o equipamento ainda não consegue identificar quando, diante do cego, há buracos ou degraus. "Eu não tenho confiança nele pra isso igual eu tenho na bengala", disse Nogueira.

"Vai haver um sensor pra isso, apontado pro chão", disse o médico oftalmologista, Leonardo César Gontijo, que participou do desenvolvimento do aparelho. Com uma outra voluntária, Vera de Abreu, que já nasceu com deficiência visual, o aparelho funciona muito bem, apitou para obstáculos como um poste e outra pessoa que entrou no caminho repentinamente. Em uma outra tentativa, a voluntária bate em um orelhão, mas o susto foi útil. Este acidente fez com que o médico-inventor pensasse em instalar sensores também na altura dos olhos. "Já quebrei um dente no orelhão", contou a voluntária.

O substituto de bengalas mineiro vai ser apresentado semana que vem no Congresso Brasileiro de Oftalmologia. O equipamento deve começar a ser vendido em um ano. "Eu imagino que deva custar o preço de um celular", disse o médico. E só quando o aparelho estiver mesmo nas ruas é que saberemos se as bengalas para cegos, um dia, vão ser coisa do passado.

"A bengala avisa, mas o aparelho avisa mais rápido", disse Vera.

Fonte: Fantástico

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Dia 10 de Outubro - Dia Mundial da Visão



No Brasil, existem mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual, sendo 582 mil cegas e 6 milhões com baixa visão, segundo dados do Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É com a preocupação de evitar que essa situação piore que se comemora hoje (11) no país o Dia Mundial da Visão, principal ação do Programa Visão 2020: O Direito à Visão, iniciativa conjunta da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IAPB). A data é sempre na segunda quinta-feira de outubro.

O objetivo do programa é eliminar a cegueira evitável em todo o mundo até o ano 2020. Isso porque até 80% dos casos de cegueira resultam de causas previsíveis e/ou tratáveis, mas a cada cinco segundos uma pessoa fica cega no mundo e uma criança perde a visão a cada minuto. São 285 milhões de pessoas no mundo vivendo com baixa visão ou cegueira. Desses, 39 milhões são cegas e 246 milhões têm moderada ou grave deficiência visual.

De acordo com o presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), Marco Antônio Rey Faria, campanhas como a do Dia Mundial da Visão são importantes para conscientizar a população sobre a necessidade de acompanhamento médico especializado, para evitar que os problemas dos olhos se agravem e acabem resultando em cegueira, que poderia ser evitada em cerca de 80% dos casos.

Segundo o médico, muitas doenças relacionadas à visão não apresentam sintomas e, quando descobertas, já estão em estágio bastante avançado e de difícil regressão. “É o caso do glaucoma, a maior causa de cegueira no mundo, sendo que, no Brasil, mais de 1 milhão de pessoas são portadoras da doença”, informa Rey Faria.

O glaucoma se caracteriza pelo aumento da pressão intraocultar – explica o presidente do CBO – que leva a uma atrofia progressiva do nervo ótico, se não controlada, e compromete o campo de visão do paciente. “Na fase final, é como se ele estivesse olhando apenas por um buraco de fechadura”, explica o médico.

Apesar da gravidade, hoje o glaucoma pode ser tratado com sucesso, tanto com drogas como por meio de laser e cirurgias até de implante de válvulas na região afetada. O mesmo ocorre com outras doenças oculares, segundo o médico, pois “a medicina está muito evoluída e, com as técnicas atuais, a imensa maioria das doenças oftalmológicas é facilmente tratada quando descoberta prematuramente”.



Fonte: Uol

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Invisibilidades

Rede SACI
11/10/2012
Artigo de Marta Gil


Comentário SACI: (*) Marta Gil: Socióloga, consultora na área da Deficiência, coordenadora do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas, Fellow da Ashoka Empreendedores Sociais, colaboradora do SENAI-SP e do Planeta Educação. Foi uma das criadoras da Rede SACI e sua gerente até 2006.


A “invisibilidade” na área da Deficiência já se tornou uma velha conhecida. As pessoas com deficiência a sentem na pele, nas mais diversas situações; os que estão perto delas ou trabalham na área têm muitas histórias dela para contar.

Para Harry Potter e seus amigos, a invisibilidade trazia vantagens e, portanto, era desejável: com a capa mágica, podiam se aventurar, descobrir segredos e identificar vilões. A capa os protegia, dava acesso a informações preciosas ou mesmo favorecia escapadelas.

Não é esse o caso das pessoas com deficiência. Porém, já que repetimos tantas vezes essa afirmação e até comprovamos sua ocorrência, vale a pena refletir sobre isso.

Mas, por que usar o plural?
Porque acho que há dois tipos de invisibilidade.

A nossa velha conhecida é aquela que ignora as características das pessoas com deficiência, camuflando-as com frases como “Para mim, todos são iguais”; “O que me interessa são pessoas”; “Trato todos do mesmo jeito” ou variações parecidas. Essas frases, que aparentemente traduzem sentimentos louváveis, podem esconder um perigo, embora as intenções de quem fala sejam as melhores e as mais nobres possíveis.

Perigo? Como assim?
Ele reside na não consideração de características que fazem parte da natureza da pessoa com deficiência. Se os traços diferenciais são “pasteurizados” em nome desta igualdade que não respeita a diversidade – ao contrário, passa um trator sobre ela - então essas características ficam, sim, “invisíveis”. Resultado: escolas (e demais espaços sociais) não têm materiais em braile, em português simplificado ou com audiodescrição; surdos não têm intérpretes de Libras; rampas, elevadores, softwares, pisos podotáteis nem são contemplados em orçamentos, etc., etc.
Como alerta Reinaldo Bulgarelli: As pessoas não são “alminhas vagando por aí”; têm corpos, características, desejos e necessidades, que formam sua identidade. Quando esta não é sequer considerada em nome de uma suposta “igualdade”, elas se tornam “invisíveis” porque algumas de suas características são solenemente ignoradas. Aí, a presença nos espaços sociais se torna difícil ou até mesmo inviável, para muitas. Isso explica porque nem sempre são vistas por nós.

Esse tipo de invisibilidade deve ser combatido, sempre. A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que o Brasil ratificou com equivalência constitucional é o instrumento mais potente que dispomos para garantir a visibilidade. A Convenção traz um novo olhar, tendo como base os Direitos Humanos. Um de seus pilares é a Acessibilidade, em todos os significados do termo. A ausência de acessibilidade configura discriminação – e discriminar é crime. Simples assim.

Ana Paula Crosara, que tinha uma deficiência física, costumava dizer que esperava o dia em que entrar e sair de um carro fosse algo corriqueiro, deixando de ser “um espetáculo”, que atraía olhares curiosos.
Esse outro tipo de “invisibilidade” é desejável, pois vem da naturalidade: indica que as condições para que as pessoas com deficiência possam participar da sociedade estão asseguradas. Assim, elas podem “aparecer” e todos podemos conviver com tranquilidade, segurança e respeito.

A “invisibilidade desejável” beneficia a todos, porque considera a diversidade funcional de cada um. Ela cria um círculo virtuoso: ao olhar de frente o diferente, a sociedade inventa alternativas e busca soluções; à medida que a acessibilidade aumenta, mais pessoas entram na roda e a diferença passa a ser percebida e celebrada como parte da riqueza da Vida.
Para termos direitos iguais, nossas diferenças precisam ser vistas, reconhecidas e aceitas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Olha como foi, meu filho!

05/10/2012
Artigo de Lívia Maria Villela de Mello Motta, em 'Bengala Legal'.
Jucilene, amiga de muitos anos, com a qual venho compartilhando muitas experiências e histórias, grande parte delas ligadas à audiodescrição, está grávida. E como toda gestante em seu pré-natal, foi fazer seu segundo ultrassom. Desde o começo da gravidez, que ela já vinha comentando que seria muito legal que eu fosse junto para fazer a audiodescrição do exame. “Nossa”, pensei, “preciso me preparar para isso…” E fui pesquisar na internet o que revelam os exames de ultrassom nas diversas semanas de gestação, tentando aprender a terminologia e conhecer as imagens para ganhar familiaridade com o tema.

Não consegui acompanhá-la no primeiro, mas neste, lá estava eu no meio dos dois, papai e mamãe, olhos grudados no monitor, tentando traduzir em palavras as imagens acinzentadas que iam sendo exibidas à medida que a médica, a Dra. Clarissa, passava o aparelho sobre a barriga besuntada de gel de Jucilene.

Comentei: "Ju, o que eu estou vendo agora não é exatamente o contorno do bebê, mas algumas bolhas de ar que se movimentam lentamente, parecendo flutuar."

Dra Clarissa foi explicando, com objetividade, cada imagem que aparecia no monitor e eu ia complementando com mais detalhes descritivos que pudessem dar a Jucilene e Sandro a possibilidade de construção da imagem mental do bebezinho, confortavelmente aninhado na barriga da mamãe. E todas as partes de seu corpinho flexionado foram sendo exibidas: a coluna vertebral curvada, o rostinho de perfil já com o nariz e boca delineados, os dedinhos das mãos fechados e um deles esticado como se estivesse a apontar, os órgãos do aparelho digestivo e urinário, os órgãos genitais que a Dra Clarissa descreveu como o casco de uma tartaruga, o coraçãozinho pulsando, os ossinhos dos braços e das pernas, o cérebro com canais finos compondo a massa encefálica.

Jucilene contou para Dra Clarissa o que é audiodescrição e sobre sua importância para as pessoas com deficiência visual. A médica explicou que já traduz as imagens mostradas no monitor para suas pacientes que enxergam, pois é mesmo difícil entender aquelas imagens ainda sem contornos definidos que não lembram formas humanas. Para as mamães com deficiência visual, mais alguns detalhes descritivos poderão fazer toda a diferença. Jucilene confirma isso em seu depoimento:

"Sou uma mamãe ansiosa por sentir em meus braços o frágil corpinho desse bebê que sinto a cada dia crescer e fortalecer dentro de mim. Este não é o primeiro filho, mas devo dizer que cada filho é único, cada gravidez tem suas particularidades. Me lembro como se fosse hoje ao fazer o primeiro ultrassom do Gianluca, que hoje tem 8 anos. Foi um momento mágico, saber que estava tudo bem, ouvir o pulsar do seu coraçãozinho. Mas confesso que seria bem interessante se tivesse um pouco mais de detalhes a cada exame. É fato que hoje temos muito mais recursos ao nosso alcance, pois se antes para gravar levávamos fita K7, imaginem o tamanho da evolução em levar hoje um DVD.

Agora que podemos usufruir deste maravilhoso recurso que é a audiodescrição, busco sempre fazer com que as pessoas me detalhem, contem o que estão vendo, mesmo que elas não façam a menor ideia num primeiro momento do que seja o recurso e sua importância para nós, pessoas com deficiência visual.

Neste período de minha gravidez, tenho conhecido muitas mamães na mesma situação que eu, que esperam ansiosas para dar a luz a mais um ser para este planeta. A única diferença é que elas enxergam e os papais também. O papai Sandro tem me acompanhado em todas as etapas desta gestação. Por isso, achei bem justo e válido convidar a nossa querida amiga para descrever este exame para nós. Transformar em palavras as imagens que ficam tão distantes aos nossos olhos. Eu ainda posso sentir o pesar da barriga, os chutes deste molequinho que se vira prá cá e prá lá dentro do meu útero. Quis tornar mais próximo do papai tudo o que acontece aqui dentro."

"Só posso dizer que mesmo ainda com os contornos cinzentos, foi uma experiência muito rica e diferente. Tenho muita sorte de ter ao meu lado pessoas tão especiais que dão ainda mais cor a este momento que para mim tem sido muito importante. Por isso, se você mamãe com deficiência visual for fazer estes exames de imagem, peça mais detalhes aos médicos. Explore sua imaginação e tenho certeza de que será o máximo. A audiodescrição não acontece apenas em teatros, cinemas ou em qualquer outro programa cultural, mas sim em tudo aquilo que não tiver palavras, mas que tenha importância para você. Faz parte do nosso dia-a-dia, afinal dizem que o mundo é visual."

O papai Sandro completa: "meus sentimentos no momento da audiodescrição foi de poder prestar mais atenção às informações técnicas passadas pela médica. Eu acho que o homem só tem mesmo noção quando pega o filho nos braços e começa a ouvir sua manha, seu choro e sua risada. Acredito que essa sensação dos primeiros 9 meses de gestação é única e somente a mulher consegue sentir e participar 100% desse momento e de suas sensações. Mas para mim isso não tira minha alegria e minha responsabilidade de participar desse momento. Acho que o homem tem que prever o que a mãe está sentindo e tentar ser o mais presente, carinhoso e atencioso do que nunca."

E essa tradução do visual para o verbal não restringe-se a futuras mamães com deficiência visual, mas estende-se também a pais que queiram acompanhar o pré-natal e o nascimento de seus bebês, a pacientes que são atendidos em hospitais ou consultórios, a pessoas que vão fazer exames em laboratórios, ou que são atendidas em clínicas de reabilitação e outros locais na área da saúde. Médicos, dentistas, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde podem e devem introduzir mais informações descritivas em seus atendimentos a pessoas com deficiência visual, o que certamente irá informar e complementar o entendimento sobre o ambiente, instrumentos e procedimentos, baixando, com isso, a ansiedade e colaborando para um atendimento com mais qualidade, comunicação e interação. Uma atitude respeitosa que demonstra a preocupação com acessibilidade e inclusão.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

MEC: matrículas de alunos com deficiência sobem 933,6% em 10 anos

05/10/2012
Dado foi confirmado pelo Ministério em seu site e diz respeito ao intervalo de 2000 a 2010.

O Ministério da Educação (MEC) informou nesta segunda-feira, por meio de seu site, que a quantidade de matrículas de pessoas com deficiência na educação superior aumentou 933,6% entre 2000 e 2010. Estudantes com deficiência passaram de 2.173 no começo do período para 20.287 em 2010 - 6.884 na rede pública e 13.403 na particular. O número de instituições de educação superior que atendem alunos com deficiência mais que duplicou no período, ao passar de 1.180 no fim do século passado para 2.378 em 2010. Destas, 1.948 contam com estrutura de acessibilidade para os estudantes.

De acordo com o MEC, no orçamento de 2013, o governo federal vai destinar R$ 11 milhões a universidades federais para adequação de espaços físicos e material didático a estudantes com deficiência, por meio do programa Incluir.

O Incluir tem como objetivo promover ações para eliminar barreiras físicas, pedagógicas e de comunicação, a fim de assegurar o acesso e a permanência de pessoas com deficiência nas instituições públicas de ensino superior. Até 2011, o programa foi executado por meio de chamadas públicas. Desde 2012, os recursos são repassados diretamente às universidades, por meio dos núcleos de acessibilidade. O valor destinado a cada uma é proporcional ao número de alunos.

Entre 2013 e 2014, o governo afirma que vai abrir 27 cursos de letras com habilitação em língua brasileira de sinais (libras) nas universidades federais, uma em cada unidade da Federação. Segundo o MEC, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) vai ofertar mais 12 cursos de educação bilíngue (português¿libras) a partir do próximo ano.

Para dar suporte de recursos humanos aos novos cursos nas universidades federais, será autorizada a abertura de 229 vagas de professores e 286 de técnicos administrativos. As ações fazem parte do eixo educação do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência - Viver sem Limite, que envolve diversos ministérios para promover a inclusão, autonomia e direitos das pessoas com deficiência.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Vaga na universidade é apenas a 1ª batalha para quem tem deficiência

05/10/2012

Segundo relatos de candidatos com deficiência, as dificuldades começam antes mesmo de chegar aos locais dos exames que, muitas vezes, não oferecem a acessibilidade necessária.
Heloisa Cristaldo e Thais Leitão

A conquista de uma vaga em uma universidade pública é um sonho para muitos jovens brasileiros. Dominar o conteúdo exigido no vestibular, no entanto, pode não ser o principal desafio para que um aluno consiga ingressar em instituições de ensino superior. Segundo relatos de candidatos com deficiência, as dificuldades começam antes mesmo de chegar aos locais dos exames que, muitas vezes, não oferecem a acessibilidade necessária.

Outras barreiras podem estar embutidas nas próprias questões que os alunos devem resolver nas provas, como contou Maria das Graças Morais, 21 anos. A jovem, que tentou o vestibular da Universidade de Brasília (UnB) cinco vezes, coleciona relatos de problemas. "Em uma das provas, uma questão deveria ser feita com base na observação da figura de uma bicicleta. Por incrível que pareça, na prova adaptada para o braile não havia a descrição da figura e na prova do ledor, que nos ajuda a saber o que está sendo pedido, também não havia a figura para que ele pudesse descrever o que estava vendo. Como eu poderia fazer aquela questão?", questiona a jovem, que tem deficiência visual.

Dados do Censo da Educação Superior de 2010 apontam que em um universo de 6,3 milhões de estudantes matriculados em cursos de graduação, apenas 16.328 universitários são identificados como pessoas com deficiência. Desse número, 10.470 estão na rede privada. O dado mostra a realidade sobre a dificuldade de ingresso e permanência dos estudantes com deficiência no ensino superior no Brasil.

Ronan Alves Pereira é pai de Tomás Pereira, 20 anos, estudante cego do 5º semestre do curso de Letras e tradução em inglês da UnB. Ele também acredita que o filho foi prejudicado por condições inadequadas nas provas da universidade. Em uma das vezes, o rapaz, que nasceu cego, fez o vestibular da instituição e foram identificados erros de grafia em enunciados e de transcrição para o braile. "É uma situação muito grave encontrar uma cadeia química incompleta ou sinais trocados em equações matemáticas: no lugar do sinal de adição, o de subtração. O resultado nunca daria certo", conta Ronan.

No entendimento de Tomás, há precariedade no atendimento ao aluno com deficiência. "O atendimento ao aluno e à família das pessoas com deficiência é extremamente precário. Além disso, não há vontade política de tirar as barreiras. Os problemas são questionados, mas não temos solução. Nas respostas, a universidade é omissa, discriminadora", argumenta o estudante, que lamenta por muitos amigos com deficiência que não conseguiram entrar na universidade como ele.

"Identificamos várias divergências na prova, foram sucessivos recursos e uma longa jornada até conseguir entrar na faculdade. Há vários colegas que não têm oportunidade ou conhecimento dos recursos e ficam pelo caminho", destaca.

Depois de algumas tentativas, Tomás conseguiu entrar na universidade. Para garantir a vaga, contou com a ajuda do pai que checou item a item da prova tradicional com a prova aplicada ao filho, em braile. As dificuldades, no entanto, não acabaram. Ele teve de enfrentar a falta de estrutura para a locomoção dentro do campus. "Ir ao banheiro, por exemplo, é muito complicado, pois não há identificação nas portas. Outro problema é conseguir mesa para colocar o teclado de braile, que é grande e não cabe em uma mesa comum. Nem todos os professores se dispõem a compartilhar a sua própria mesa comigo", conta ele, que diariamente é obrigado a desviar de bebedores, cadeiras e outros obstáculos com auxílio de uma bengala. É ela que o ajuda a identificar, quando há piso tátil, o caminho para onde quer chegar.

Luiz Antônio Bichir Garcia, 25 anos, é calouro na UnB. Aluno do primeiro semestre de história, Garcia, que sofre de uma paralisia cerebral, precisa de estrutura adaptada para acompanhar as aulas. Ele é cadeirante, tem atrofia nas mãos, não lê e nem escreve. Conta com ajuda de sete tutores da universidade para gravar as aulas e os textos trabalhados pelos professores, além da locomoção pelo campus. O pai do jovem, Luis Antônio Garcia, que o acompanha diariamente, diz que a estrutura não é adequada, mas acredita que há uma preocupação da instituição em avançar.

"O campus tem muitos problemas para o deslocamento de cadeirantes. As calçadas são esburacadas, as rampas de acesso são muito íngremes e os banheiros não são adequados. Mas a universidade oferece certo apoio aos estudantes e estamos otimistas. Acreditamos que, aos poucos, as coisas vão melhorar", diz.